domingo, 14 de junho de 2020

O morro dos ventos uivantes: edição comentada (Clássicos Zahar) por [Emily Brontë, Adriana Lisboa, Maria Luiza X. de A. Borges]

Duas famílias. Um amor proibido. Uma tragédia. Poderia ser “Romeu e Julieta”, de William Shakespeare, mas não é. “O Morro dos Ventos Uivantes”, de uma das irmãs Brontë, é tão ou mais trágico que o universo shakespeariano. Enquanto “Romeu e Julieta” traz ao leitor a reflexão sobre um amor impossível, que ocorreu em apenas alguns dias, “O Morro dos Ventos Uivantes” traz um amor possível, de anos, construído durante períodos de vulnerabilidade e de confiança, mas traído e trocado – ou seja, um amor real, que sussurra aos nossos ouvidos que ele pode existir.

Até hoje, a obra de Emily Brontë entrega ao leitor um leque de sentimentos que variam do asco ao dó, do entendimento à raiva irracional, de maneira menos ou mais intensa, dependendo de como a obra é enxergada por aquele que se entrega a ela. Heathcliff e Catherine tornam-se eternos na pele que vestiram durante todo o romance. Ao leitor, cabe a façanha de despi-los, juntamente com a autora, que transita entre charnecas floridas e casas góticas sombrias, mas que jamais tira seus pés do terreno da alma humana em sua mais crua e cortante forma.

Em “O Morro dos Ventos Uivantes”, não apenas o vento uiva. A dor de ser e de existir também uiva copiosamente em cada capítulo. Essa é uma obra que traz um pedido de socorro feito por quase todas as personagens, porque, nela, o amor não constrói, destrói. O amor avassalador mata aos poucos, congelando as personagens em sua própria dor e gangrenando seu destino. O que era para ser amor, simplesmente, não o é. Ele escolhe não o ser.

O que poderia ter feito de Heathcliff um herói incompreendido o transforma em um anti-herói compreendido: o pequeno órfão cigano, filho do preconceito e da negligência, ainda criança, é adotado informalmente pelo pai de Catherine. O ato o salva de uma provável morte ou miséria, mas o expõe a outro tipo de morte quando ele se apaixona pela sua irmã adotiva e é odiado pelo seu irmão também adotivo. Para Heathcliff, a distorção do amor torna-se a ignição para uma vida de maldades e de vinganças. O amor que ele tanto sente por sua Catherine é a única coisa que poderia salvar sua alma, mas esse amor é trocado por aparências e bons modos. Catherine não suporta a pressão de uma sociedade e escolhe ser bem-sucedida e bem-vista a ser amada incondicionalmente.

Heathcliff pensava saber o que era amor, e o fato de amor não ir ao seu encontro, não o acariciar, não lhe sorrir o amargurava. Todo o ódio que, então, passou a habitar seu coração vagueia por todos os cômodos da casa onde mora, com seu filho e com seus empregados. Seu ódio fantasmagórico o maltrata e somente a voz de sua Catherine, chamando-o para o lado dela, consegue lhe dar uma falsa paz, que só é conseguida quando, ao final da obra, ele fica ao lado dela, morto, mas, pela primeira vez, sereno.

Esse ódio poderia ter perpetuado até a geração seguinte, quando os filhos de Heathcliff e de Catherine se apaixonam, mas não podem ficar juntos por causa de uma briga que não lhes pertence. Ao contrário de seus pais, no entanto, os dois vencem as barreiras do rancor e da vingança e têm um destino oposto àquele que seria o natural aos olhos de Heathcliff e do pai da filha de Catherine, também chamada Catherine. Ao nomear a criança como a mãe, é como se ela tivesse a chance de ser tudo que a mãe poderia ter sido, mas não foi: corajosa.

Brontë mostra que o ser humano pode sempre mudar, porém ela escolhe fazer isso pela atrofia das virtudes. Brontë também enfrentou a sociedade da época e os críticos, pois, embora eles assumissem a grandiosidade da obra, mostrar a podridão humana não parecia adequado naquele tempo. Brontë não apenas mostrou a nossa podridão, mas enfatizou que a distorção do amor é o que nos adoece. Hoje, mais de 170 anos depois de escrito, o que uiva aos leitores é a pergunta que bate à porta durante todo o romance: qual é o real poder do amor?

segunda-feira, 8 de junho de 2020



São cerca de 20 minutos de leitura que nos deixam uma grata reflexão: quem nos tira da solidão? Qual voz nos guia de volta a nós mesmos? A Planeta de Livros Brasil lançou cinco contos durante este período de distanciamento social e de pandemia que nos assolam. Um deles é “O dono do tempo”, que nos dá a mão e nos retira do chão, quando nos encolhemos e pensamos que ali pertencemos.
No conto de Bruno Fontes, as vozes, uma música, os potinhos de comida congelada e algumas mensagens são suficientes para mudar o curso de um dia e de um livro. O narrador abre a porta de um armário, com um espelho gigante, ao convidar o leitor para encontrar sua própria alma junto com ele. Aquele que nunca passou por uma das situações cotidianas narradas por alguém que não se sente bem durante este período ainda assim entenderá que são as ninharias do dia a dia que nos abalam ou nos elevam.
Nosso narrador sem nome se revela nu do início ao fim do conto. Saindo de um banho, que era mais para a alma do que para o corpo, ele já deixa claro que a escuridão de seu ser o sufoca e quase o mata. Durante o conto, que nos cega com os detalhes familiares de uma vida que também levamos, o narrador apenas quer ouvir uma voz: a voz que o tirará do chão. Essa voz pertence a alguém que ele não consegue rotular como amiga ou namorada, porque seu papel habita o meio das duas caixinhas. Para encontrar essa voz, o narrador se aninha nos braços de Clarice Lispector e de Gilberto Gil, mas também não encontra o que procura.
Até que ele-narrador, também conhecido por “eu-leitor”, tem o que deseja, são a voz de sua mãe e um “eu te amo” em forma de potinhos de comida congelada que lhe dão a certeza de que ela estará ali para protegê-lo, independentemente da idade. Quando ele tem essa epifania, a voz que ele deseja retorna e o ajuda a sair do torpor, que o fez dormir no chão da sala enquanto o telefone carregava.
Tudo que nosso narrador precisa entender é que tudo ficará bem e que a solidão não é parte dele, mas apenas um visitante inconveniente. A partir do momento que ele enxerga isso, seu dia muda e o sol volta a esquentar seu coração. Nosso narrador sofre como nós, à espera de uma mensagem, com potinhos de amor, cercado por lampejos de solidão. E, assim como ele, nós também encontraremos nosso sol. Basta ouvirmos as vozes e pensarmos nos potinhos...

sexta-feira, 29 de maio de 2020


Resenha do livro "O TEMPO ENTRE COSTURAS"

Com milhares de cópias vendidas e galardoada com a produção de uma série exibida na Netflix, “O tempo entre costuras”, de Maria Dueñas é um romance histórico daqueles que prendem o leitor do início ao fim. Diferentemente de outras obras do mesmo gênero, “O tempo entre costuras”, misturando personagens reais e ficcionais, traz a história não de uma personagem histórica conhecida, mas da costureira Syra Quiroga, que caiu no rol daqueles heróis que nunca receberam o reconhecimento que mereciam e permaneceram à margem da história.
Aos menos avisados, o romance começa dando a impressão de que será uma história de amor, como tantas outras, em que a mocinha bonita e inocente é enganada e abandonada pelo bonitão sem caráter, se perdendo num mundo cruel, distante da realidade pura vivida por ela até então. Mas aí é que vem a surpresa: a narrativa de Dueñas passa bem longe dessas histórias “clichês”. Syra Quiroga, após ser abandonada, grávida, em Tetuan, com dívidas e sem poder voltar ao país de origem, a Espanha, por conta da guerra civil espanhola, se reconstrói e se reinventa.
De costureira empregada, amante de um canalha, procurada pela polícia, por meio da costura e com uma nova identidade, ela se torna dona de um incrível Ateliê no Marrocos. Em seu ateliê de costura, Syra Quiroga começa a “costurar” fatos e informações, dentro de uma rede de espionagem comandada pelos ingleses, com o intuito de deter a Alemanha de Hitler. Enquanto atende elegantérrimas mulheres de políticos alemães e aprende regras de etiqueta, cultura e finanças com seu leal vizinho Félix, Syra obtém informações relevantes sobre as intenções da Alemanha, provenientes dos maridos dessas mulheres que atende em seu renomado Ateliê.
A obra destaca a beleza e o poder da amizade, pois embora sozinha, Syra conta com a ajuda preciosa das personagens Candelária, Felix, delegado Vasques, Jamila e principalmente de Rosalinda Fox. Diferentemente de Syra, Rosalinda Fox não foi esquecida pela história, já que era bastante conhecida por ser amante de um dos figurões da ditadura de Franco. Mais tarde, descobrimos que Rosalinda é uma das líderes de uma rede de espionagem britânica, da qual Syra passou a fazer parte.
A pensão de Calendária, onde Syra foi acolhida ao começar sua vida em Tetuan é dotada de uma simbologia muito forte na história. Em uma véspera de Natal, Candelária brinda ao “pelotão de infelizes” que moram em sua pensão e aqui se veem traços do movimento literário denominado “tremendismo espanhol”, em que a situação do país, que se encontra em guerra civil, é refletida na caracterização e na desgraça e infelicidade das personagens.
O protagonismo feminino, na obra, seja por meio de Syra Quiroga, Rosalinda Fox, Jamila, Candelária ou qualquer outra, é admirável. Analisando anacronicamente esse romance histórico, o leitor fica fascinado com a coragem daquelas mulheres, que, mesmo em uma época em que a mulher não tinha voz, conseguiam, com bravura, terem suas vozes ouvidas e interferirem positivamente no destino da história mundial.
No decorrer da história, Syra se apaixona por Marcus Logan, que, mais tarde, descobre ser um espião que, como ela, também trabalha para os britânicos. Ao final, não sabemos ao certo os rumos dessa história de amor, mas ficamos encantados e emocionados com a reconstrução e com a força de Syra, que se descobre como uma grande mulher, independentemente de qualquer história de amor!

sábado, 16 de maio de 2020

Resenha da obra "Mulherzinhas", em uma edição fantástica da Planeta de Livros Brasil!


Louisa May Alcott possivelmente não imaginou o impacto que sua obra teria em seus leitores ao longo das décadas. Talvez ela ficasse um pouco curiosa em relação à tradução brasileira de “Little Women”, porque “Mulherzinhas” não representa a força das mulheres da família March, reduzindo-as a mulheres fracas ou apenas a pequenas mulheres. De fracas, as mulheres March não tem coisa alguma e de pequenas mulheres, as meninas têm apenas a idade. Meg, Jo, Beth e Amy são adolescentes em uma época em que meninas de 13 anos deveriam se transformar em mulheres. De certa forma, isso ocorre com elas, e as quatro irmãs também são mulheres-meninas ou meninas-mulheres, o que varia de acordo com o olhar do leitor, em busca de sobrevivência. Entretanto, não são fracas ou pequenas.
“Mulherzinhas” tem personalidade própria e aspirações certeiras. Seu universo literário é repleto de detalhes importantes de uma época dominada pela Guerra Civil e por papéis sociais que deveriam ser cumpridos à risca. Nossas quatro meninas quase fogem à regra da época, mas, antes mesmo da segunda parte do livro, voltam a fazer o que a sociedade lhes impõe – se não de uma forma, de outra – e o que a Guerra lhes permite. O tom da narrativa é simbiótico às irmãs, que, cada uma a seu modo, passam a fazer parte de nossa família enquanto elas existem naquelas linhas. Cada uma das quatro completa um cenário contrastante e colorido, que, às vezes, pode ser sombrio também. No entanto, ao iniciar a obra em uma noite de Natal, o leitor percebe que a esperança permeará as experiências de nossas March.
As quatro irmãs representam as paredes estruturais da obra, com suas personalidades distintas, mas corações unidos. Enquanto Meg sonha em se casar e ter uma família, Jo quer ser uma escritora famosa e independente. Cada uma das mais velhas tem preferência por uma das mais novas: Meg protege Amy, vaidosa, mimada e aspirante à artista, e Jo protege Beth, a mais delicada e altruísta das irmãs. Marmee, a mãe, recusa-se a perder a doçura e seus valores diante das amarguras da vida e funciona como o fio condutor da família, que fica à espera do pai, que ainda não voltou da guerra. Em quaisquer cena
s, no entanto, as quatro irmãs jamais se despedem da esperança. À Beth, cabe ainda o papel da mensagem que a felicidade pode morar onde menos se espera.
O ritmo do livro pode parecer um pouco lento em alguns momentos mais descritivos, porém tais descrições são necessárias para representar o dia a dia de nossas adoráveis mulheres. Um leitor menos atento pode perder momentos preciosos da representação de uma época e de como uma família foi afetada pela Guerra. É no limiar dos detalhes que habita a ternura dentro da força feminina aqui representada pelas irmãs e pela mãe.
É bem provável que cada leitor irá se identificar com uma personagem específica, seja ela uma das irmãs ou Marmee ou Laurie ou o Professor Baher. Também é provável que cada leitor irá identificar, em si ou em algum conhecido, traços do temperamento explosivo de Jo, ou a vaidade pueril de Amy, ou a dependência emocional de Meg, ou o altruísmo, a quietude e a timidez de Beth. Isso acontece porque “Mulherezinhas” não é apenas uma história de época: ela é uma obra que mostra que nossas riquezas residem em nossos corações, em nossas crenças, em nossos sacrifícios e em nossas fontes de felicidade. Na verdade, Alcott não escreveu uma história; ela deu vida a uma ideia e a convenções que são harmoniosamente distribuídas nos arcos de cada irmã e de Marmee e, apesar de não fugir aos padrões de seu tempo, o que a autora proporciona a quem abre as páginas de sua obra-prima é um delicioso caldo quente em uma noite fria de inverno raro.

quinta-feira, 16 de abril de 2020

O Diário de Anne Frank

A menina que, apesar de tudo, acreditava na bondade humana vem deixando uma lição de vida em tempos pandêmicos. Anne Frank deixou um legado à humanidade ao escrever seu famoso diário, durante seus 2 anos de confinamento, na Segunda Guerra Mundial. “O Diário de Anne Frank”, considerado um patrimônio para a humanidade e, ainda, de valor histórico, tornou-se imprescindível em 2020.
A adolescente judia usou seu diário para descrever dois momentos distintos de sua vida: os que antecederam o minuto em que ela teve que se esconder para tentar sobreviver e os que contam a vida dos judeus que moraram, durante dois anos, de 1942 a 1944, no Anexo Secreto. O que foi publicado como diário não foi escrito como tal, pois Anne o chamava de Kitty, alguém que ela idealizava ser uma pessoa leal, em quem ela pudesse confiar, ou seja, sua melhor amiga.
Aos 13 anos, as trivialidades pueris de uma juventude em desenvolvimento deveriam ter sido a maior preocupação da adolescente. Entretanto, aos 13 anos, Anne teve a rotina de sua vida descontinuada e, em vez de pequenas brigas com colegas e sonhos românticos, ela se viu dividindo um espaço pequeno, porém seguro, com duas outras famílias além da sua. Resistir e sobreviver passaram a ser uma preocupação real. Sonhar e acreditar passaram a ser seu motivo de viver.
De seus relatos de menina adolescente, ficam algumas lições.
A primeira é que o ser humano tem a capacidade infinita de se adaptar, mesmo que seja sob circunstâncias tão ruins. A segunda é que a empatia pode e deve existir. Em 1942, não se usava esse termo para se referir à capacidade que o ser humano tem de se colocar no lugar do outro, refletindo como ele pode aliviar a dor alheia ou se alegrar com as pequenas conquistas de alguém, mas o ato em si sempre existiu. Afinal, os oito judeus que dividiram aquele espaço não teriam sobrevivido por dois anos se não tivessem recebido a ajuda de algumas pessoas. Sem empatia e coragem, hoje, também não teríamos a possibilidade de ler “O Diário de Anne Frank” se Miep Gies não tivesse se arriscado para guardá-lo e entregá-lo à menina ou a quem de sua família sobrevivesse.
A maior lição que Anne nos deixa, entretanto, é a capacidade imensurável de amar e de acreditar. Mesmo em tempos de guerra, quando cada dia viva se tornava uma vitória, Anne jamais deixou de acreditar no ser humano e o amor. Seu diário é uma das provas literárias mais profundas de que o ser humano pode se reconstruir, se ressignificar e se reinventar se ele não deixar de acreditar e de amar...
Quando a obrigatoriedade, inclusive moral, de um distanciamento social existe para que uma pandemia acabe, nós podemos encontrar nossa humanidade e nossa fantástica capacidade de reconstrução a cada dia. Basta acreditar e amar... Afinal, se uma menina de 13 anos conseguiu enxergar isso durante dois anos inteiros de confinamento, em uma guerra mundial, tentando salvar a própria vida, por que todos que podemos ficar em casa não conseguiríamos abrir a janela, olhar para fora e pensar na quantidade de vidas que podem ser salvas? A relatividade de confinamentos deveria nos fazer mais gratos... É... Ainda temos muito a aprender com Anne Frank e sua maturidade...
(Nossos agradecimentos especiais à Giulia Scorzoni, que, nesta foto, gentilmente "devolveu" a gatinha de Anne Frank a ela, sob os pelos da pequena Aurora.  )

quarta-feira, 8 de abril de 2020

História da Violência

O efeito do preconceito, da vergonha e da mentira permeiam a obra ficcional, mas de experiência pessoal, de Édouard Louis. História da Violência é o retrato de como uma sociedade pode modificar ou sufocar alguém. Transitando entre o passado e o presente, Édouard permite que o leitor saiba o que realmente aconteceu naquela noite de Natal apenas quase no fim do livro. O autor convida o leitor a dar um passeio em sua mente, para que toda a sua angústia e sua confusão sejam sentidas. Junto com ele, o leitor viaja pelas fases da vida do autor e percebe como ele enxerga o mundo e como aquele episódio o afetou de diversas maneiras.

Na madrugada de um solitário 25 de dezembro, Édouard conhece Rema e o leva ao seu apartamento. O que Édouard pensa ser apenas um encontro que, no futuro, talvez pudesse se transformar em algo mais sério, torna-se seu pior pesadelo: Rema quase o mata enforcado e o estupra violentamente, a ponto de ele ter sangue escorrendo pelas pernas e manchando sua calça no hospital. No entanto, o crime hediondo não é o único pesadelo que Édouard já teve em sua vida real. Tudo se inicia com o fato de ele se sentir diferente em todas as fases de sua vida. Ao perceber que ele era diferente, sua autopercepção adolescente foi se construindo de maneira negativa, fazendo com que ele se sentisse claustrofóbico em seu corpo e em sua mente. O vilarejo onde morava equivalia a uma prisão, e o julgamento das pessoas do vilarejo o incineravam constantemente.

Quando Édouard finalmente consegue se mudar para a cidade grande, ele demora para se adaptar. A liberdade de poder ser quem ele é vem com extravagâncias, que ele enxergava como necessárias antes de conhecer dois homens que se tornam seus melhores amigos e confidentes. A amizade dos três permite que Édouard consiga entender sua homossexualidade como algo natural, que não precisa de artifícios para ser escondida ou de excentricidade fabricada.

Durante toda a obra, Édouard fala sobre como a mentira acontece em pequenos gestos e nas falas daqueles que você ama e que deveriam amar você incondicionalmente. A mentira não o assusta e define sua visão de mundo. Esconder a verdade, para ele, é apenas um ato de sobrevivência e, dele, vem parte da sua destruição naquela noite de Natal. Se ele não enxergasse a mentira como algo tão banal, talvez ele tivesse percebido que seu encontro com Rema não terminaria bem. Talvez ele tivesse fugido. Talvez, apenas talvez, ele tivesse entendido que um cachecol em volta do seu pescoço não significasse uma brincadeira após o roubo de seu celular.

Édouard conta com a fluidez de uma criança tudo que lhe vem à mente. Muitas vezes, o leitor se pergunta se o que ele está contando e verdade ou se são suas impressões, vistas pelos olhos contaminados de quem sempre viveu entre mentiras, preconceito e vergonha. Não há como saber e tampouco deveria interessar. O que ele quer dizer é que a mentira e o preconceito sempre estarão presentes em nossas vidas. Ele, que até aquele Natal, não se sentia preconceituoso, percebe que o preconceito também o atingiu: a etnia de Rema é uma das mais desprezadas na França, e Édouard, depois do estupro, passa a vê-la como algo ruim, transferindo a raiva que tem de um indivíduo a um povo todo.

Apesar de ser uma obra muito dolorosa, os amigos de Édouard dão a ela um tom de solidez e de promessa de um futuro melhor. No momento máximo de sua solidão, Édouard imagina que seus dois melhores amigos jamais seriam chamados para o seu enterro, pois eles não existem, aos olhos da família e de quem o conhece.  Isso lhe dói mais do que qualquer coisa. Ao fim da obra, quando o leitor percebe que os dois acolhem Édouard e que Édouard sabe que eles sempre encontrarão um jeito de estar com ele, um leve sopro de esperança invade o leitor e, ao abraçar sua solitude, Édouard também abraça o leitor e a dor de várias verdades.

quarta-feira, 18 de março de 2020

“Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara.” Na epígrafe de sua mais famosa e atual obra, José Saramago já determina o tom da narrativa que o leitor irá encontrar: está em suas mãos a escolha entre o ver e o não ver, entre o agir e o não agir – sabendo que, muitas vezes, agir significa não fazer coisa alguma, por não ser o momento certo. “Ensaio sobre a cegueira” é um livro que choca aquele que tem a coragem de abri-lo e de desfrutá-lo, ao mesmo tempo em que o marca e que o toca por toda a vida. “Ensaio sobre a cegueira” extrapola as barreiras da cegueira do corpo e atinge a cegueira da alma de uma maneira mais próxima a nós do que desejaríamos.
Com o mundo tendo sido acometido por uma cegueira branca e contagiosa, Saramago nos presenteia com a mulher do médico, que é a única personagem que não foi atingida pela epidemia. A ela, portanto, cabe o peso de enxergar o que ninguém mais vê, de guiar quando todos estão perdidos, de tomar decisões quando ninguém mais pode e de entender quando ninguém mais sequer tenta. A cegueira incomum também retira de dentro de todos aquilo que lhes recheia, que preenche seu coração e que comanda seus passos. Enquanto alguns mostram que são feitos de amor, de gentileza, de bondade e de sonhos, outros não percebem que são feitos de piche ou de lama ou de pedra. A cegueira do livro, assim como uma pandemia na vida real, vem provar que o ser humano precisa de testes para saber quem ele realmente é.
O fato de nenhuma personagem ter nome e de poder ser identificada apenas por uma caraterística não permanente (mulher do médico, rapariga dos óculos escuros, velho da venda preta) reitera a ideia de que somos iguais, sem qualquer hierarquia na escala humana, e que nosso corpo é uma mera carcaça que abriga nosso mais profundo sentimento. A mulher do médico, íntegra e altruísta, olha para dentro dela e para dentro daqueles que ela guia – tanto fisicamente, quanto emocionalmente – e demonstra que há pessoas que vêm à Terra com uma missão amarga, porém necessária. É ela que transforma sua solidão em ação, seu medo em esperança, sua fome de viver em alimento para quem ela acolhe.
Em meio ao caos de uma cidade não identificada, com pessoas nuas e sujas de corpo e de alma, banhada com desespero, escuridão e abandono, com corpos espalhados e comidos por animais que também precisam se alimentar, nossas personagens vão deixando um pequeno rastro de luz por onde passam. Elas não abandonam uma a outra; elas dão as mãos para se guiarem; elas sabem que o coletivo é mais importante que o individual. Elas não precisam de uma igreja para demonstrar sua fé ou sua ética: elas as exercem sempre que podem, sem que sejam vigiadas, sem que façam por medo do depois. O que importa é o agora, pois o agora é tudo que elas têm.
A lealdade, a escolha pelo certo em uma situação sombria, o acolhimento e a ajuda aparecem em cada cena da obra em meio ao que o ser humano mostra de podridão. O velho da venda preta sabe que é um fardo, mas todos sabem que ajudá-lo é o correto. A ajuda não é negada. O rapazinho estrábico só precisa de uma de uma mãe, e ela vem de uma prostituta, que vende o corpo, mas não o instinto materno que a ilumina. O médico precisa de alguém que o socorra e que o fortaleça, e sua mulher o entende e o levanta. Nossas personagens mostram que uma taça com água é a celebração à vida e que uma chuva observada da janela é o renascimento. Nossas personagens são o nosso reflexo em algum momento de nossas vidas...
Ao ter aberto seu livro com a frase que inicia esse texto e ao ter feito com que o leitor refletisse sobre a hipocrisia que os cerca, é possível que Saramago tenha sorrido amargamente e pensado: “Se pudesses ver, tu escolherias enxergar? Se pudesses enxergar, tu repararias?”. Mesmo que isso não tenha acontecido, fica aqui a pergunta: será que reparamos apenas quando observamos o outro ou será que reparamos quando consertamos o que enxergamos de errado?
GOSTOU DA RESENHA? COMPRE O LIVRO EM NOSSO SITE www.adegustadora.com.br ou diretamente, no seguinte link: